LÍNGUA INGLESA COMO COMPONENTE INTEGRAL

Embasados na neurociência, linguística, pedagogia e BNCC, programas de educação bilíngue e soluções de idioma mostram às escolas que o ensino e aprendizagem devem ir além da gramática.

Em 2025, o inglês entrará, de forma opcional, na principal avaliação educacional do mundo, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). A expectativa é que no futuro outras línguas também sejam inclusas. Com essa abertura, Andreas Schleicher, diretor de educação e competências da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), organizadora da avaliação mundial, defende o inglês como uma importante ferramenta de cooperação global e compreensão intercultural.

Contudo, apenas 5% dos brasileiros sabem o básico de inglês e menos de 1% são fluentes, segundo levantamento da British Council. Especialistas das principais empresas que oferecem educação bilíngue e soluções de inglês para as escolas de ensino básico ouvidos nesta reportagem concordam que há um consenso em relação ao “jargão” de que o inglês convencional aprendido na escola é raso, aquele que o aluno não aprende.

Em seus programas, a proposta pedagógica busca reverter essa percepção e, claro, fazer os alunos dominarem a língua. Para isso, não focam apenas na gramática, mas também em competências, habilidades e nas relações. A ideia é fugir de uma aprendizagem engessada. Possuem, em sua maioria, material próprio e alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), apoio à formação docente, feedback e acompanhamento mensal e alguns até semanais. Todas as propostas têm fundamento, são baseadas em áreas como pedagogia, linguística e neurociência.

É importante enfatizar que o inglês como ensino obrigatório na educação básica passou a ser realidade com a BNCC, e isso a partir do 6º ano do fundamental. O documento, inclusive, dialoga com o posicionamento da OCDE ao colocá-lo, por exemplo, não mais como língua estrangeira, mas como língua franca, no caso, necessária para o mundo dito como globalizado.

BILINGUISMO E AS INTERAÇÕES

Ulisses Cardinot, CEO e fundador da International School, orgulha-se ao falar sobre o crescimento da empresa que transforma a escola em bilíngue. Lançada em 2009, sete anos depois seus serviços chegavam a 8 mil alunos, em 2017 foi para 20 mil, 2019 atingiu 100 mil e ano passado quase 120 mil estudantes da educação básica. Para ele, os principais diferenciais oferecidos estão na proposta de trabalhar um cidadão global juntamente aos pilares da Unesco, habilidades socioemocionais como empatia, discutir bullying e demais temas que olham a diferença. Tudo isso por meio de metodologias ativas e ensinado em inglês.

International School utiliza lego como ferramenta de ensino cujo processo é conectado ao currículo. Há ainda parceria com a MineCraft para atividades com o fundamental 2. Já para o ensino médio, projetos de alunos são selecionados e os melhores passam 15 dias no Kennedy Space Center, núcleo de educação da Nasa, aprendendo matemática e ciências, além de treinar o inglês. Também há games adaptados para cada faixa etária.

Sobre a implantação do programa nas escolas, o CEO diz: “acho que a grande receita do projeto é que você não precisa demitir o professor que você tem, você não precisa mudar o sistema de ensino que você tem, você não precisa mudar a sua metodologia. O nosso programa conecta a qualquer metodologia. O que você vai precisar é contratar um professor de inglês ou aproveitar o que você tem desde que ele passe nos nossos testes de qualidade. Então você vai ter esse professor, montar a sua estrutura e fazer uma grade”.

International School adota a abordagem CLIL, sigla em inglês que pode ser entendida como Aprendizagem Integrada de Conteúdos. Segundo Cardinot, a marca criou um conceito que também aplica a aprendizagem baseada em projetos. “Nós construímos uma ideia de ensino bilíngue conectado aos RNC [Referencial Curricular Nacional] PCNs [Parâmetros Curriculares Nacionais], na época não se falava em BNCC, olhando tanto esses RNC e PCNs com a faixa etária do aluno e tendo noção do que estará aprendendo e trazendo o inglês também para esse processo. É um projeto que oferece algo diferente, lúdico, saídas pedagógicas, fazendo atividades diferentes para o inglês ser algo atrativo”, destaca.

O CEO gosta de surpreender. Tanto que no evento online da International School de 2020 para educadores, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai foi uma das palestrantes.

“Deu frio na barriga, estava entrevistando um Prêmio Nobel. Ela fala muito que um lápis, um caderno e uma criança podem mudar o mundo. Essa frase é impactante e eu acredito muito nesse poder de transformação da educação”, enfatiza Ulisses Cardinot.”

CONSELHO NACIONAL E AS NOVAS DIRETRIZES

O mercado de educação bilíngue cresceu, de 2014 a 2019, 10%, revela a Associação Brasileira do Ensino Bilíngue (Abebi). Tal crescimento deu notoriedade ao setor. Tanto que, finalmente, esse tipo de ensino foi pauta no Conselho Nacional de Educação (CNE) e, em julho do passado, o Conselho aprovou as Diretrizes Nacionais para a Educação Plurilíngue no Brasil, faltando agora sua homologação pelo MEC. No documento estão inclusos a educação indígena, educação de surdos, educação em regiões de fronteiras e bilinguismo e plurilinguismo.

A resolução que define as diretrizes diz que, para ser considerada bilíngue, a escola precisa ter projeto pedagógico bilíngue na educação infantil, fundamental e médio, sendo que a implantação pode ser feita gradativamente. “As escolas que não ofertem currículo bilíngue em todas as etapas de ensino devem comunicar essa escolha à comunidade escolar e, em decorrência, não podem utilizar a denominação de escola bilíngue”, pontua um trecho.

Para alguns especialistas, o ponto positivo, diante do contexto da reportagem, é a definição do que é educação bilíngue, uma vez que não havia uma legislação e as próprias escolas e programas acabavam sem orientações oficiais sobre as diferenças entre educação bilíngue, escola de idioma e escola internacional.

Ulisses Cardinot, CEO da International School, também alerta que falta incentivo financeiro e na formação do professor de inglês, principalmente ao falar de educação pública e que o governo precisa investir. “As particulares estão entendendo que ‘é preciso ter na escola’, mas a escola pública está muito atrás. E sabemos que não é só adotar o material bilíngue, é realmente ter esse profissional que faz diferença em sala de aula. Então acho que existe um desafio muito grande para a educação pública. E para sairmos do pequeno percen­tual de fluentes no Brasil, isso passa exclusivamente pela educação pública.”

Retiramos trechos desta matéria que foi realizada e publicada integralmente por: Revista Educação

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